quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

CRÓNICA FINAL


A melhor prova duma real amizade
está em evitar os compromissos entre
aqueles que se estimam.
(Augustina Bessa-Luís)


Porque tudo tem um fim; porque a eternidade rima com saudade parece-me ser a altura ideal para fazer uma longa pausa neste “escrevinhar”.
A vida profissional não se compadece com blogues confessionais ou outros. Sem “saudades”, mas com muita afectividade, apraz-me agradecer sinceramente a todos(as) que me leram e que comentaram os meus “rabiscos”.
Não é uma despedida, pois vou continuar atento aos blogues dos(as) amigos(as). Também sei que vou voltar, embora num registo totalmente diferente. Nessa altura vou dar notícias. Até lá “vou andar por aí”. Pois.

RECADO AOS AMIGOS DISTANTES

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.
(Cecília Meireles – 1901 – 1964)











quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

CRÓNICA (IN)COMPLETA

O absurdo é a razão lúcida
que constata os seus limites
(Camus)

Já disse que aprecia o Inverno e porquê.
Também lhe parece que é a época do ano mais propícia às recordações. Porquê, não sabe nem está minimamente interessado. Mas existe um certo fatalismo nos dias cinzentos e de chuva que lhe é agradável.
Ela era meiga e bela; num inalterável movimento suave erguia-se como uma onda de encontro a ele. As suas longas pernas, envolviam-no; a sua voz rouca sussurrava o nome dele, os olhos claros repletos de desejo. Tocava-lhe o corpo em todos os lugares exactos, fazendo com que as mãos lhe queimassem com a vontade de as passar por cada centímetro da sua pele macia.
A chuva continuava a bater nas vidraças. Viajante do tempo, sem funções definidas deixava-se navegar a todo o pano. Aproou no porto da realidade.
Acendeu um cigarro ao mesmo tempo que lia mentalmente a frase deixada por ela: o destino é a oportunidade; as opções são aquilo que se faz com elas. Pois.


INTIMIDADE


Que ninguém
hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.

Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.
(Fernando Namora – 1919 – 1989)

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

CRÓNICA QUE ERA PARA O NÃO SER

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem
(Antero de Quental)
A sua rotina entrou numa lentidão evidente. Movia-se entre os dias, mas era como se fosse um espectro. Os outros não o viam. Não o tocavam, nem ele os tocava. Era como se nunca tivesse vivido e talvez isso fosse excelente, salvo numa coisa. Via muito.
Como a enorme faixa dourada que lhe desobstruía o curso pelas suas vivências. O terror nunca é uma realidade corpórea. Tem outras máscaras.
Tentou soltar-se, mas os braços dela mantiveram-se firmes. Só mais um pouco, dizia ela na sua voz arrastada. Estava a ser convincente, como sempre.
Sou apenas uma visita, um viajante, um tipo sem importância para ela, que apenas ela agora deseja. Que importância isso tem? – eu também não desejo nada: a minha vida é isto, ia pensando ele. Ninguém quer transformar os meus medos em alegrias, as minhas dúvidas em certezas.
Até te podia beijar. Dizer que te amava. Não; que carinhosamente te idolatrava. Mas falta-me a vontade e a certeza. Tenho receio que, afinal não passes do meu desejo de fim-de-semana. Pois.


CANSA SENTIR QUANDO SE PENSA

Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo -
Ah, nada é isto, nada é assim!)

(Fernando Pessoa -1888 – 1935)

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

CRÓNICA DO SENTIR

O céu é uma abóbada escura por cima de mim.
Não vejo o caminho. Para me iluminar
acendo em mim um sol de angústia
(Busuioceanu)
A existência tinha sido assim: o (des)limite, a extensão imensa num pairar sem tempo, a (in)certeza do rolar na curva longilínia dum belo universo de maravilha e desejo. Tinham parado o tempo e não sabiam nem podiam recomeçar…o que nem sequer tinham iniciado.
Estava tão perto que lhe aspirava o odor dos cabelos. Era bom, limpo e fresco, como as mimosas no alto das colinas. Olhou-a nos olhos. Pareceu-lhe uma eternidade. Depois beijou-a. A sua boca era quente e doce, com sabor a romã. Sentiu-lhe o braço em volta do pescoço e a pressão do corpo contra o seu. Deixou tombar a mão até ficar na cintura dela.
Que dinâmicas está a pensar para conseguir a interacção com eles? – Despertou do seu longo devaneio e respondeu: talvez uma dinâmica quebra-gelo, mas ainda vou reflectir até lá. Está preocupado com alguma coisa, comentou ela novamente; está muito pensativo.
Então ele recordou-a, em outros tempos longínquos na sua frase preferida: não penses. Pensar é distrair-se uma pessoa, é falhar aos sentidos. Quando uma pessoa se domina, mata-se. Pois.

NUA
I

Nua
como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo
é água de torrente...

Eva adolescente,
com reflexos de lua
e tons de aurora...!

Roseira que enflora...!

Desflorada por tanta gente...

II

Teu corpo,
mal o toquei...

Só te abracei
de leve...

Foi todo neve
o sonho que alonguei...

Asas em voo,
quem, um dia, as teve?

Os sonhos que eu sonhei!

III

Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança
do ramo de árvore
que o vento beija e balança!

Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!

Quem destrançou os teus cabelos de oiro?

IV

Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...

Tão macio,
tão modelado...

Beijos... Beijos... Beijos...

V

No meu sono
ela flutua
a cada passo...

Nua,
riscando o espaço
numa névoa de Outono...

Apenas nos cabelos
um azulado laço...

E assim enlaço
a imagem sua...
(Saúl Dias – 1902 – 1983)

domingo, 4 de Outubro de 2009

CRÓNICA DE ACREDITAR

Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho,
é invisível p'ra mim.
(Álvaro de Campos)
Era uma daquelas alturas, feitas para quem nasceu com sentido perdedor. Naquelas ocasiões em que uma pessoa discorre sobre tudo e, no entanto não pensa realmente em nada.
É vulgar, mas não deixa de ser verdade. O tempo ajuda a perspectivar. Quando se é colhido pelas emoções do passado, a verdade é que não se consegue ver, ficamos como folhas impelidas pelos ventos de Inverno, agitados pelos demónios adormecido em nós. O tempo debilita e, por vezes, mata os demónios do amor e do ódio, deixando apenas o mais frágil fio de uma lembrança, que nos permite espreitar o passado e ver muita coisa que não víamos antes.
Por vezes até dizemos baixinho: Deus (ou quem quer que seja), dá-me o tempo de volta. Pois.

QUEM DORME COMIGO À NOITE?

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

(Reinaldo Ferreira – 1922 – 1959)

sábado, 26 de Setembro de 2009

CRÓNICA DE UM REGRESSO ANUNCIADO


A vida está cheia de uma infinidade de absurdos
que nem sequer precisam de parecer verosímeis
porque são verdadeiros.
(Pirandello)
Quando as recordações se assenhoreiam de nós existe sempre a dificuldade de as transpor para o papel. Às vezes por pudor, outras por incapacidade de “escrevinhar” e acima de tudo, porque temos sempre presente uma frase de um português multifacetado que dizia mais ou menos isto: não te metas na vida alheia, porque podes lá ficar preso. Claro que as lembranças não são nosso exclusivo; antes fossem, ou por outra, talvez fosse preferível não existirem; ou talvez não. Pois.
Estar ali, na cama, com aquela bonita mulher, era para ele o momento mais alto da sua vida presente. De repente, ela deu uma gargalhada, um som de genuína felicidade, que o fez despertar dos seus pensamentos. Gostava dela, mas não a amava. Fazia-lhe recordar a outra. A de sempre; a de uma vida. Não conseguiu impedir de sorrir tragicamente.
Levantou-se e viu a sua imagem reflectida no espelho. Sentiu pena de si próprio. Vestiu o casaco e exclamou: vou embora. Adeus. Ela permaneceu na cama, olhando com atenção uma pequeníssima mancha no ombro.
Sabes, dei o teu nome a um barquinho de papel que juntei a uma frota de outros barcos a deslizarem no oceano da nossa vida, onde um cisne quase navio, quase sonho, rasando dunas, quase pássaro cantando poemas de amor se calou para sempre.
Outro café, Sr… perguntou a jovem do bar. Acendeu um cigarro e respondeu: sim, com uma água lisa, por favor. Pois.


NÃO FALO DE PALAVRAS

Não falo de palavras, nem de goivos,
mas de horas atadas ao pescoço.
Poema verdadeiro é sermos noivos:
saber tirar a pele e o caroço

ao grito entre a morte e outra morte
que nos mantenha lassos e despertos
até que venha o talhe que nos corte
e nos retire os poços e desertos.

Por isso, meu amor, o que te dou,
beijo beijado em corpo claro e vivo,
é mais que o verso que te dizem, ou
aliterante, agudo ou conjuntivo.

Colado a tudo, mesmo a contragosto,
o rio inventa o verso, e não assim
como se ao espelho visse o próprio rosto,
mas tu além-palavra, ao pé de mim.
(Pedro Tamen – 1934)

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

CRÓNICA DE UM TEMPO SEM TEMPO

Liberdade é pouco.
O que eu desejo ainda não tem nome.
(Clarice Lispector)

Ela estava sempre presente nas suas noites mal dormidas. Como uma sombra que nos segue, ou persegue.
Usava sandálias de salto alto, calças jeans de marca e mais maquilhagem do que talvez fosse necessário. Dava-lhe um ar mais velho, ou talvez mais vivido. Fazia-o de propósito, porque sabia que ele não apreciava esse seu ar. O sutiã escondia seios pequenos que a blusa cor-de-rosa, muito cingida procurava realçar. Ondas de cabelos castanho-avermelhados desciam ao longo das costas docemente torneadas.
Puxou-a mais para si e beijou-a. Ela fechou os olhos e permaneceu quieta. As suas línguas entrelaçaram-se e ele foi capaz de sentir o bater do seu coração dentro do seu peito. Acariciou-lhe os cabelos rebeldes e aspirou o seu perfume.
Então amanhã vamos a uma açorda d'alho, pergunta o amigo à sombra da esplanada. Acompanhamo-la com aquele branco do Redondo. Ela desapareceu; vamos, respondeu ele, enquanto recordava uma frase dela: é sempre de amor que padecemos, mesmo quando cremos de nada padecer. Pois.

PASSEMOS, TU E EU, DEVAGARINHO

Passemos, tu e eu, devagarinho,
Sem ruído, sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
A pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, num torvelinho
De folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber o precioso vinho,
A rara embriaguez deste momento.

E se a tarde vier, deixá-la vir...
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas...

De costas para o Sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.

(Reinaldo Ferreira – 1922 – 1959)